Adoção de IA sem governança pode transformar sucesso de uso em problema de orçamento.
A Uber consumiu em quatro meses o orçamento anual de IA. O que faltou governar?
A adoção pode crescer mais rápido que a capacidade de explicar valor. Governar custos de IA não é apenas impor um teto — é definir quem pode consumir, sob quais regras, com quais limites e qual resultado precisa ser entregue em troca.
A Uber conseguiu algo que muitas organizações ainda perseguem: disseminar o uso de inteligência artificial em larga escala. Em julho de 2026, o CTO da empresa informou que 99% de seus engenheiros utilizavam ferramentas de IA. O problema, portanto, não era baixa adoção.
A origem do caso são duas declarações distintas. Em abril, o CTO Praveen Neppalli Naga disse ao The Information que o orçamento anual reservado ao Claude Code já estava esgotado: “voltei à prancheta, porque o orçamento que eu achava que precisaria já foi embora”. Em maio, o presidente e COO Andrew Macdonald reconheceu a outra metade do problema — a empresa ainda não conseguia traçar uma relação clara entre o aumento do consumo de tokens e a entrega de funcionalidades úteis para os clientes.
O caso não é isolado: o custo da IA passou a exigir justificativa explícita em empresas de grande porte, e a discussão sobre retorno virou pauta de conselho.
O episódio não prova que o investimento foi errado. Ele mostra algo mais importante: a adoção pode escalar antes que políticas, métricas, responsabilidades e controles tenham amadurecido na mesma velocidade.
O que segue não é um diagnóstico dos controles internos da Uber — a empresa não os divulgou. É a pergunta que o caso obriga qualquer liderança a fazer sobre a própria operação.
O consumo pode acelerar antes que o valor fique claro.
O problema de governança começa quando as duas trajetórias deixam de evoluir juntas.
Adoção não é resultado
Na primeira fase de adoção, muitas empresas acompanham número de usuários, licenças, frequência de acesso, volume de prompts, tokens consumidos e agentes criados. Esses indicadores são úteis, mas medem principalmente disseminação e atividade.
Uma organização pode multiplicar o uso de IA sem reduzir o tempo de um processo, melhorar a experiência de um cliente, eliminar retrabalho ou ampliar sua capacidade operacional.
Consumo
Usuários, prompts, tokens, licenças, sessões, agentes e chamadas mostram quanto a IA está sendo utilizada.
Valor
Tempo, qualidade, receita, margem, risco evitado, custo reduzido e capacidade operacional mostram o que mudou por causa da IA.
Circula no mercado a expressão tokenmaxxing para descrever o consumo intensivo de capacidade de IA tratado quase como objetivo em si. O risco é criar incentivos para utilizar modelos mais caros sem necessidade, repetir execuções, manter prompts excessivamente longos ou criar agentes sem objetivo econômico definido.
O resultado pode ser uma empresa aparentemente avançada em IA, mas incapaz de explicar onde o investimento está gerando retorno.
É por isso que o problema não começa na fatura. Ele começa quando ninguém consegue ligar consumo, processo, resultado e responsabilidade.
Orçamento, alerta e bloqueio cumprem funções diferentes
Muitas organizações acreditam que controlam gastos porque definiram um orçamento ou configuraram alertas. Mas esses mecanismos não são equivalentes.
Orçamento
Define quanto a organização pretende investir em uma área, projeto, produto, processo ou agente.
Alerta
Informa que o consumo se aproximou ou ultrapassou determinado patamar e exige análise ou aprovação.
Bloqueio
Reduz, limita ou interrompe a continuidade de uma execução quando a regra definida é violada.
Uma empresa pode ter orçamento e alertas sem possuir controle efetivo sobre a continuidade do consumo. Por isso, é preciso definir antes do desvio acontecer:
- quando um alerta deve ser emitido e quem deve recebê-lo;
- quais desvios exigem aprovação;
- quando o uso deve ser reduzido ou interrompido;
- quem pode autorizar uma exceção;
- qual evidência precisa existir para ampliar o orçamento.
Sem essas regras, o dashboard apenas informa que o problema já aconteceu.
Foi o caminho que a própria Uber acabou seguindo: em junho de 2026, cerca de dois meses depois do estouro, a empresa passou a limitar o uso interno das ferramentas de codificação por IA. O bloqueio existiu — só chegou depois da fatura, não antes dela.
Com agentes, o risco deixa de ser apenas financeiro
Se controlar custo já é difícil quando pessoas utilizam ferramentas diretamente, o desafio aumenta quando agentes passam a executar tarefas com autonomia. Um trabalho publicado em 2026 catalogou 63 incidentes confirmados de estouro de orçamento em 21 frameworks de orquestração, incluindo problemas associados a retries, delegação e corrida de orçamento.
Isso muda a natureza do controle: o limite de custo deixa de ser apenas uma decisão contratual e passa a fazer parte da arquitetura do agente.
O agente precisa saber o que deve produzir e quais tarefas estão fora do escopo.
Limite máximo, modelos autorizados, custo esperado e condições para escalar capacidade.
Limite de chamadas, número de retries, acesso a dados, ferramentas e ações permitidas.
Critérios de parada, aprovação humana, registro das ações e rastreabilidade do consumo.
Antes da tecnologia, a empresa precisa de políticas
Ferramentas de controle são necessárias, mas não definem sozinhas o comportamento esperado. A organização precisa estabelecer critérios objetivos para autorizar consumo, responsabilizar decisões e interromper iniciativas que não entregam o mínimo esperado.
Usuários, aplicações, fornecedores e agentes autorizados.
Por usuário, área, projeto, processo ou agente.
Objetivo empresarial e resultado esperado.
Regras de dados, modelo, fornecedor e ambiente.
Dono explícito de custo e resultado.
Critérios para ampliar uso, orçamento ou capacidade.
Resultado mínimo para manter, ampliar ou interromper.
Políticas não deveriam existir para bloquear a IA. Elas devem permitir ampliar rapidamente os usos que geram valor e corrigir os que produzem apenas consumo.
O ponto central é atribuir responsabilidade integral. Em muitas empresas, TI paga a conta, a área de negócio utiliza a ferramenta, compras negocia o contrato e ninguém possui ownership sobre custo + resultado.
A governança econômica da IA exige quatro dimensões
Medir apenas custo resolve metade do problema. A liderança precisa conectar adoção, gasto, transformação operacional e valor empresarial em uma mesma lógica de decisão.
Estamos usando?
usuários, áreas, agentes, processosQuanto custa?
área, modelo, agente, orçamentoO que mudou?
tempo, qualidade, SLA, retrabalhoVale continuar?
economia, receita, margem, risco, ROIAdoção mostra alcance. Custo mostra esforço. Resultado operacional mostra se o processo mudou. Valor empresarial mostra se a iniciativa merece mais investimento.
Essa conexão permite distinguir dois cenários que parecem iguais na fatura: uma área pode gastar mais porque encontrou um caso de uso altamente valioso; outra pode gastar mais apenas porque o consumo cresceu sem controle.
Política, metodologia e tecnologia precisam operar juntas
Na visão da SuperClient, governança econômica de IA funciona melhor como um ciclo contínuo, e não como uma revisão de orçamento realizada depois que a fatura chegou.
O ciclo de governança econômica
A tecnologia aplica regras. A metodologia conecta indicadores. A política define responsabilidade e critérios de decisão.
O orçamento da Uber ter durado cerca de quatro meses não prova, por si só, que a empresa gastou mal. Pode indicar que ela subestimou uma oportunidade relevante.
O problema aparece quando a liderança não consegue distinguir crescimento saudável de consumo sem retorno proporcional.
A fatura mostra quanto a IA consumiu. A governança precisa mostrar quem autorizou, o que foi entregue e se o investimento merece continuar.
A fatura responde quanto foi consumido. A governança precisa responder o restante.
Quanto da sua IA é custo — e quanto é valor?
Avalie se sua empresa consegue conectar usuários, modelos, agentes, orçamento, resultado operacional e valor empresarial em uma mesma lógica de governança.
Fontes
- The Information — Uber CTO Shows How Claude Code Can Blow Up AI Budgets, reportagem de Laura Bratton, abril de 2026. Fonte original do dado dos quatro meses. Conteúdo restrito a assinantes.
- Forbes — Uber Burns Its 2026 AI Budget In Four Months On Claude Code, 17 de maio de 2026. Repercussão de acesso aberto, com adoção do Claude Code de 32% para 84% dos engenheiros e custo de US$ 150 a 250 por engenheiro/mês.
- The Verge — Uber president says AI spending is getting harder to justify, maio de 2026. Declaração do COO Andrew Macdonald sobre a dificuldade de ligar consumo e resultado.
- Praveen Neppalli Naga, CTO da Uber — publicação no LinkedIn sobre adoção de IA e Agentic Pods, julho de 2026. Informa 99% dos engenheiros usando ferramentas de IA e mais de 70% dos pull requests atribuídos a agentes locais ou em nuvem.
- Axios — AI sticker shock hits corporate America, maio de 2026.
- Khan, Sajjad — Token Budgets: An Empirical Catalog of 63 LLM-Agent Budget-Overrun Incidents, arXiv, junho de 2026.